É com imensa tristeza que escrevo esta carta. Antes de anunciar a minha decisão quero contar a minha história.
Nasci no dia 04/08/1979. Sou de uma família humilde, honesta e de bom nível cultural. Sempre recebi uma ótima educação e que deu origem ao meu caráter. Passei em concurso e estudei no Colégio da Polícia Militar do Paraná por 4 anos, inclusive indo para o quadro de Honra ao Mérito. Como não quis seguir na vida militar, fiz outro concurso e fui estudar no Colégio Estadual do Paraná, onde concluí meu 2º Grau. Não fiz faculdade, mas mantenho-me informado sobre muitos assuntos, pois, tenho o hábito da leitura. Profissionalmente especializei-me em design gráfico, ao qual exerço a profissão até hoje.
Bom, falando da minha vida de torcedor... Em 1989, quando eu tinha 10 anos de idade e cursava a 4ª série do antigo primário, o assunto FUTEBOL começou a mexer comigo. Meus colegas de sala eram, na maioria, atleticanos. Meu pai, apesar de não ser torcedor atuante, também torcia pelo time da Baixada. Eu, inexplicavelmente, sem sofrer influência de ninguém, comecei a torcer pelo Verdão do Alto da Glória. Acho que foi até para ficar contra os “caveirinhas” que eram um grupo grande na época. Neste mesmo ano, 1989, o Coritiba foi Campeão Paranaense, mas eu ainda não sabia o verdadeiro significado da palavra TORCIDA ORGANIZADA.
Em 1991 fui no meu primeiro jogo. Sozinho, com a camisa do Coxa, peguei o ônibus e fui a caminho do Pinheirão. Atletiba, 2x1 para nós com gol de virada do Ronaldo (bom, na verdade só não tenho certeza deste resultado, pois são tantos jogos na memória...). Neste dia conheci o que era torcida organizada pela primeira vez. Não era a maior. Não era a que cantava mais alto. Mas foi a que mais me chamou atenção e tinha um nome marcante e forte: IMPÉRIO ALVIVERDE.
Daí em diante comecei a ir a todos os jogos do Coritiba em casa. Todos, inclusive as fraquíssimas partidas da “Copa Curitiba” em 1994 (acho que foi neste ano), com a participação dos 3 times da capital e mais o Londrina, com rodadas duplas no “querido” estádio do Pinheirão.
Voltando um pouco no tempo, em 1993, um grupo de Coxas do bairro que eu morava, Conj. Caiuá, começou a ir junto para os jogos, fortalecendo a massa alviverde. Crescemos juntos com a torcida. Vários jogos memoráveis, como o ATLETIBA de 1995 (este eu tenho certeza da data!) com vitória do Verdão por 3x0 e a manchete no jornal: “Alô Brasil, o Coxa voltou!”, marcando a volta do Coritiba à Primeira Divisão do cenário nacional.
Em 1995 comecei a viajar com a torcida em jogos fora de casa. O objetivo: apoiar o Verdão, seja aonde for. E foi assim que fui conhecendo todos os estádios paranaenses e pelo Brasil a fora. Fui em jogos em Floripa (Ressacada e Orlando Scarpeli); Criciúma; Porto Alegre (Olímpico e Beira Rio); São Paulo (Pacaembu, Morumbi, Canindé e Palestra Itália); Itu; São Caetano; Santo André; Jundiaí; Barueri; Araras; Campinas; Santos (Vila Belmiro); Rio de Janeiro (Maracanã, Engenhão e São Januário); Brasília; Belo Horizonte (Mineirão); Salvador (3x); Maceió; Recife; Natal e Fortaleza (3x).
A grande maioria não tem a mínima noção do que passamos para ir representar a torcida alviverde fora de Curitiba. Viagens aéreas ou terrestres pagas do PRÓPRIO BOLSO. Viagem, como por exemplo, para o Mineirão (BH) enfrentando 17 horas de estrada. Isso quando o ônibus não quebra, aí o tempo aumenta. Depois vem a segunda-feira e os famosos atestados para não ir trabalhar, arriscando perder o emprego. E quando a viagem é numa quarta-feira, lá vão as desculpas de novo. Faltar ao trabalho sim, ao jogo do Coritiba não. Mas isso é o de menos... Muitas vezes nos estádio pelo Brasil somos recebidos com pedradas, bombas caseiras e até tiros. E sem contar o despreparo da polícia em várias cidades brasileiras. A entrada no estádio é difícil. A saída complicada. E corremos estes riscos para que em todos os jogos do Coritiba tenha uma faixa na arquibancada sinalizando que ali tem uma TORCIDA QUE NUNCA ABANDONA, mas que exige um time de ALMA GUERREIRA, seja aonde for.
Devido a minha participação ativa na torcida, em 2006 fui convidado a assumir a vice-presidência da Império no lugar do Osvaldo Dietrich (Porks), que estava indo trabalhar no clube.
Dentre as minhas funções, assumi a responsabilidade de cuidar das viagens da torcida, organizando todas as caravanas em jogos fora; Também fiquei responsável em acabar com as desavenças de bairros dentro da torcida, ou seja, a Império ficou mais forte e unida; Junto com o Papagaio (presidente) comecei a participar de vários projetos sociais como: doação de sangue, campanha do agasalho, material escolar, alimentos, brinquedos, chocolates e roupas, enfim, cresci e amadureci junto com a Império.
Infelizmente também houve problemas, pois, como líder meu nome ficou cada vez mais em EVIDÊNCIA. Por ser uma pessoa enérgica e ATUANTE (pois participava da torcida de forma integral, não apenas administrativamente), envolvi-me em algumas confusões como, por exemplo, fui preso por porte ilegal de arma no dia 19/05/2009 (veja a minha declaração sobre este assunto neste link: http://imperioalviverde.com.br/noticia_coluna.php?t=c&id=382). Saí no dia 20/08/2009 da cadeia em termos de condicional, onde umas das exigências era para que eu não respondesse nenhum processo judicial. Mas no último jogo do meu amado Coritiba no Brasileirão 2009 a desgraça aconteceu: o Verdão caiu para a 2ª Divisão com um empate sem brilho diante do Fluminense e, num ato sem pensar envolvido pela emoção, participei de umas das histórias mais tristes do Glorioso, onde a torcida invadiu o campo transformando o gramado numa praça de guerra. A princípio segurei muita gente para não invadir o campo, inclusive enquanto o árbitro não tinha apitado o final da partida. Mas após o apito final a situação ficou incontrolável e também invadi o campo. Devido a este erro, numa operação da polícia fui preso e passei mais 6 meses exatos em regime fechado. Natal, Ano Novo, Carnaval, Dia das Mães... tudo isso longe da minha família, privado da liberdade 24 horas por dia dentro de uma cela suja.
Dentre as punições que recebi, algumas já esperava, outra me surpreendeu:
• A diretoria do Coritiba Foot Ball Club me penalizou com a proibição de 1 ano sem poder entrar no estádio e assistir às partidas do Verdão;
• Ainda aguardo julgamento para saber a punição da Justiça;
• Muitos, MOVIDOS PELA MÍDIA, consideram-me um bandido. Coisa que não sou. Tenho muito Jesus no meu coração e quem me conhece pessoalmente sabe disso. Sabe do que sou e não sou capaz. Meu erro foi apenas amar demais este clube que FOI uma influência na minha vida;
• O presidente da Império me deu uma suspensão de 5 ANOS (CINCO!) sem poder participar de nenhum evento da torcida. Fiquei muito frustrado ao saber desta punição, pois, PARA MIM, significou que meus 18 anos de Império terminaram com uma punição, ficando apenas a imagem negativa. Tudo o que eu fiz (e SOFRI) pela torcida foi esquecido. Ainda vou conversar pessoalmente com ele.
Às vezes me pergunto se tudo isso valeu a pena. Se os dias que passei dentro de uma cela, se a humilhação que um preso sofre e, também, a sua família em dia de visita, tendo que ficarem nus diante de pessoas estranhas para tomar geral, não importando se é criança, adulto ou idoso, sento tratados inferiorizados por estarem ali visitando um familiar que é, simplesmente, um PRESO.
Será que esta minha vida de torcedor valeu a pena? Olho as notícias de esportes (esta carta foi escrita quando eu ainda estava no presídio de Piraquara) e vejo que um dos jogadores responsáveis pela má campanha do Coritiba em 2009 já encontra-se no São Paulo F.C., feliz da vida, ganhando seu MILHARES DE REAIS mensalmente e não estando nem aí para a situação que seu ex-clube ficou. Aliás, este é um dos exemplos das dezenas (ou serão centenas?) que nos fazem pensar se isto vale a pena. Se pensarmos com a CABEÇA e não com o CORAÇÃO, com certeza a resposta é imediata: não vale a pena. Mas... a emoção, o efeito psicológico que o “SER TORCEDOR” sofre, faz com que esqueçamos a lógica, esqueçamos a realidade de que pode haver resultados combinados, partidas entregues, árbitros comprados, jogadores fazendo corpo mole, dirigentes corruptos... Enfim, quando somos torcedores, o nosso cérebro vira 100% coração, fazendo-nos acreditar que o nosso time será campeão mundial, mesmo não tendo qualidade técnica para isso.
Mas também digo que valeu a pena. Tudo o que plantei será um aprendizado para o meu futuro. As amizades feitas nesta família chamada IMPÉRIO ALVIVERDE serão cultivadas.
E, para constar aos “falacianos”, sempre paguei o meu ingresso. Também no início de 2007 fiz meu plano de sócio e paguei mensalmente sem atrasar até a última parcela de dezembro de 2009.
Aproveito para deixar um agradecimento especial para todos que me ajudaram e não deram as costas (que são poucos);
Vou dedicar a minha vida única e exclusivamente para trabalhar e para a minha esposa Valéria que, aliás, é a base da minha vida. DEVO MUITO A ELA;
Agradeço à minha mãe e peço perdão pelas lágrimas que a fiz derramar... Amo vocês FAMÍLIA!
Um “salve” para os amigos de curtição. Muitos e muitos churrascos, viagens e festas que ficarão guardados em lembranças nas minhas centenas de fotos.
“Salve” também para todas as torcidas aliadas da Império. Uma das coisas positivas das caravanas é a amizade que se faz em todo o Brasil. Atitude e respeito sem limite de distância. Não vou citar aqui os nomes para não cometer o erro de esquecer de alguma aliada mas, nos lugares que passei, fiz amizades pessoais que manterei para sempre.
Aos que ficam, deixo o meu pedido: NÃO DEIXEM A IMPÉRIO ACABAR! Conquistem o que eu ainda não vi ser conquistado: uma SEDE PRÓPRIA para a torcida. Lutem por isso. E, claro, levem o Coritiba ao seu devido lugar, a elite do futebol brasileiro.
Hoje, 11 de junho de 2010, paguei pelo meu erro e aproveito para expor publicamente que deixo a Torcida Organizada Império Alviverde e paro de freqüentar os estádios brasileiros.
Finalizando esta carta, abri a Bíblia para dar-me forças para conter as lágrimas. Por coincidência (OU NÃO), o Salmo que li foi o 143. “Mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a ti elevo a minha alma. Livra-me, Senhor, dos meus inimigos, pois em Ti é que me refugio.”
Depois desta leitura do Livro Sagrado, será que ainda preciso ter dúvidas quanto a minha decisão???
Obrigado, Jesus, por ser a luz no meu caminho.
Reimackler
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